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SAÚDE MENTAL DOS TRABALHADORES DA SAÚDE EM TEMPOS DE PANDEMIA

 

Alfredo Assunção Matos[i]

Cristiane da Silva Santos[ii]

Isabella Maio[iii]

Luísa Maiola de Araujo[iv]

Taianah Almeida Barroso[v]

 

Não é de hoje que a saúde mental relacionada ao trabalho (SMRT) ganha notoriedade no campo da Saúde do Trabalhador por ser uma das principais causas de adoecimento. Desde antes da pandemia de Covid-19, observa-se aumento de quase 15 vezes nas notificações de casos entre os anos de 2007 a 2018 (de 122 para 1807 casos) (Sistema Nacional de Agravos de Notificação - Sinan).

Conforme descreve o sindicalista Luizinho do EISA (2019), há aumento global dos Transtornos Mentais Relacionados ao Trabalho (TMRT), agravados com as perdas de direitos da classe trabalhadora, as mudanças dos modelos de produção existentes, que cada vez mais precarizam as relações de trabalho, e, ainda, a pandemia da Covid-19 que afeta diretamente o modo como o trabalhador relaciona-se com o seu trabalho.

O grande desafio para pensarmos as questões relacionadas aos TMRT é a subnotificação dos adoecimentos aos órgãos competentes, acrescido do discurso biomédico, que desconsidera a centralidade do trabalho no cotidiano dos trabalhadores e as implicações do modelo atual de produção na saúde, dificultando  a percepção dos impactos deste modo de produção no processo saúde-doença.

Como se não bastasse o modelo neoliberal que nos assola, no início de 2020, o mundo foi surpreendido por uma infecção respiratória causada pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) que provoca a doença Covid-19. O crescimento do número de casos rapidamente fez com que, no final de janeiro de 2020, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarasse a situação como uma emergência de saúde pública de interesse internacional. Em março de 2020 a Covid-19 foi considerada pandemia pela OMS, que instituiu medidas essenciais para seu enfrentamento (OMS, 2020). Entre as medidas adotadas estão a manutenção do distanciamento social, proibição de aglomerações e utilização de máscara em caso de quadro gripal ou infecção pela Covid-19. Devido a esse contexto, o enfrentamento da pandemia é uma das funções essenciais da Saúde Pública, sendo necessário analisar todo o processo determinante e de prevenção do adoecimento. Portanto, o mundo de trabalho também deve ser considerado para a elaboração das estratégias de enfrentamento da Covid-19 pois, como já sinalizado por outros autores, “a Covid-19 segue nas rotas das cadeias produtivas”.

Sabe-se que, para os trabalhadores da área da saúde (i.e. médicos, enfermeiros, técnicos, psicólogos, maqueiros, recepcionistas, trabalhadores da limpeza etc.), os principais desafios no enfrentamento à pandemia são: o elevado grau de contágio do vírus, a falta de equipamentos de proteção individual (EPI), a sobrecarga de trabalho e os impactos na saúde. Cabe ressaltar que as condições precárias de trabalho, intensificação da jornada de trabalho, novos fluxos e organizações de trabalho impactam diretamente na saúde mental dos trabalhadores podendo originar sentimentos de incapacidade e desamparo. Além das inseguranças vivenciadas e da precarização do trabalho, esses trabalhadores ainda são considerados como possíveis transmissores da Covid-19. 

O impacto na saúde mental é resultado de diversos fatores relacionados ao contexto do trabalho, em especial pelo elevado  número de trabalhadores que atuam na linha de frente infectados pelo novo coronavírus. "O Ministério da Saúde divulgou [em 12/06/20] que 19% dos 432.668 profissionais de saúde testados para o novo coronavírus no país tiveram resultado positivo. No total, 83.118 trabalhadores foram diagnosticados com a doença. De acordo com a pasta, foram relatados 169 óbitos de profissionais da área até o momento." Por exemplo, os trabalhadores que atuam em hospitais diretamente com os pacientes infectados, além de estarem mais vulneráveis, também estão mais propensos a adoecer psiquicamente, podendo desenvolver depressão, medo e ansiedade. 

A partir desta conjuntura, é necessário criar estratégias de apoio psicológico a estes trabalhadores, que possibilitem um espaço de fala e acolhimento. É preciso estarmos atentos às estruturas em que estes trabalhadores estão inseridos, a fim de não individualizar esse sofrimento mas, pelo contrário, considerá-los imersos em um projeto político de sucateamento da saúde e dos direitos trabalhistas que, nesse momento de pandemia, evidencia a precarização da Saúde Pública e dos vínculos trabalhistas. 

Deste modo, entende-se que profissionais de saúde são protagonistas na frente do cuidado aos pacientes acometidos pela doença, tanto os casos mais leves quanto os que evoluem mais gravemente. A área da saúde possui em sua gênese uma sobrecarga em relação ao trabalho, por lidar com situações diversas de fragilidade do humano e a convivência cotidiana com o surgimento da vida e a iminência da morte, tendo no advento da pandemia a luta diária para 'salvar vidas' aumentadas em escalas geométricas. 

Tal pressão sobre estes profissionais vem aumentando a instabilidade da saúde mental, onde os níveis de estresse, ansiedade, irritabilidade, insônia e depressão se acentuam. Outros fatores que tendem a aumentar o nível de estresse destes trabalhadores são: excesso de informações em relação ao vírus; constante reorganização de protocolos; aumento no volume dos atendimentos; medo de ser contaminado; receio de disseminar o vírus entre seus familiares; constante falta de medicamentos e insumos para atendimento à população infectada e, dentre outros, os afastamentos de colegas contaminados.

Diante desse cenário no qual as exigências dos profissionais de saúde aumentam progressivamente, vemos um contexto político que destitui direitos sociais e do trabalho com a extinção do Ministério do Trabalho de extrema importância para a defesa da classe trabalhadora e que visava proteção às legislações trabalhistas. Há tempos, os profissionais de saúde estão com a sua saúde mental fragilizada. No atual contexto da pandemia, isto se torna mais visível, visto que estes trabalhadores não possuem a escolha de isolamento ou distanciamento das pessoas que precisam cuidar. Como na "Construção" de Chico Buarque (1971) estão morrendo na contramão "atrapalhando o tráfego”. Como 'alinhar' essas mudanças às novas exigências sanitárias? Ora, se o trabalho é categoria central, a quem essas mudanças da política atual atendem?

Neste contexto, a vigilância em saúde do trabalhador (Visat) torna-se primordial, pois privilegia o planejamento de ações em Saúde do Trabalhador, voltadas para a melhoria das condições de vida e saúde (BRASIL, 2018). Contudo, apesar das ações de Saúde do Trabalhador serem atribuição do Sistema Único de Saúde-SUS constitucionalmente definida, não podemos deixar de destacar que a Saúde do Trabalhador ainda não foi completamente incorporada ao sistema, dificultando as ações de proteção aos trabalhadores.

Como estratégia de enfrentamento a esse contexto, podemos citar o exemplo dos trabalhadores da saúde do Rio de Janeiro que, aliados aos sindicatos e apoiados pelos parlamentares progressistas, criaram o “Nenhum Serviço de Saúde a Menos” a fim de lutar contra a precarização dos vínculos de trabalho, pela manutenção de salários e benefícios. Além disso, lutam também para manter o fornecimento de insumos e atendimento digno à população. Acreditamos que essas e outras iniciativas, que privilegiam o protagonismo dos trabalhadores, aliadas ao saber técnico e interdisciplinar, são fundamentais para o planejamento e prática dessas ações em Visat, são respostas para combater o adoecimento dos profissionais de saúde.

Por fim, mas não menos importante, devemos destacar que a Saúde do Trabalhador é uma das pontes para a garantia dos direitos humanos. A SMRT é representada aqui como uma de suas ramificações. A garantia dos direitos fundamentais dos trabalhadores e das trabalhadoras só se concretizam a partir da organização destes indivíduos como sujeitos da sua própria história, especialmente na atual conjuntura de retrocessos, com o avanço dos governos conservadores e fascistas, onde vemos o desmonte de diversos direitos trabalhistas, precarizando ainda mais às condições de trabalho.

 

[i] Psicólogo, administrador, mestre e doutor em Psicologia pela UFRJ. Discente do curso de especialização em Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana.

[ii] Assistente Social, especialista em Saúde Mental e Atenção Psicossocial pelo IPUB/UFRJ e Discente do Curso de Especialização em Saúde do. Trabalhador e Ecologia humana.

[iii] Assistente Social, Mestranda em Saúde Pública ENSP/Fiocruz.

[iv] Psicóloga, residente em Saúde do Trabalhador.

[v] Nutricionista, mestre em Ciências da Nutrição. Residente e discente do curso de especialização em Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana.

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